Abrir e fechar uma dissertação na beira do mundo
Lembro de quando me sentei pela primeira vez para escrever a minha dissertação de mestrado, e de como aquelas primeiras linhas nasceram como se outra pessoa as escrevesse, ou como se eu tivesse sentado calmamente no banco de trás daquele corpo que digitava as palavras. Era um momento estranhamente corporal, e aquelas primeiras linhas, que nunca apareceriam de fato na versão final do texto (porque foram apagadas) serviam mais para que eu saísse de minha inércia do que, de fato, para que minhas ideias encontrassem alguma vazão.
Acho que o ambiente universitário tem consigo o crime que é a preservação do mistério da escrita: soturna, solitária, vinda dos porões dos quartos-escritório para as salas de reuniões fechadas e para os porões das bibliotecas, quando impressa. Acho que naquele dia sentei no banco de trás de mim mesmo porque não sabia, de fato, como escrever uma dissertação, e precisava que os dedos inconsequentes e as ideias inconsistentes primeiro manchassem a expectativa, para que, depois, aquelas palavras fossem corrigidas e, assim, nascesse o primeiro capítulo.
Costumo dizer que escrevo às avessas. Que meu texto, por assim dizer, nasce na direção contrária: escrevo da direita para a esquerda e subindo a página, não descendo. Para finalizar, escrevo pelo meio, nas entrelinhas, e releio do início ao fim, imaginando ser um leitor ou leitora se encontrando pela primeira vez com aquelas palavras; só então encerro o texto. Não recomendo, nem deixo de recomendar que escrevam assim, porque isso não é uma técnica, é uma constatação. Afinal, qual a melhor maneira de descobrir como se escreve, se não vendo a si próprio, em sua intimidade, escrevendo e lutando com cada página em branco que se abata sobre os olhos sonolentos?
Mas não quero alimentar nenhum mistério desnecessário: digo que escrevo de trás para a frente porque escrevo, na verdade, desordenadamente. Para mim, as ideias se debatem a cada palavra, e uma afirmação precisa da devida explicação e suporte, bem como do prosseguimento de sua ideia, e assim se ensaia um texto. Isso, claro, se ele tem um caráter mais ensaístico e não consiste em uma exposição formal de dados, cujos manuais APA já dizem muito bem, e muito melhor do que eu, o que fazer.
Para o bem ou para o mal, noto que meus textos são, assim, textos de correção. Inicio com uma ideia, que corrijo e aprimoro, menos como alguém que vai de uma ponta a outra, e mais como alguém que parte de uma ideia central e lhe adiciona a periferia necessária para que seja enxergada. Conheço quem traceje um esqueleto do texto antes de escrever, e siga a ideia de uma ponta a outra, mas sou incapaz: nunca comecei montando um esqueleto do texto e o preenchi até o fim; sempre o desviei em algum momento.
Acredito que exista quem funcione melhor fazendo roteiros, ou esqueletos, e preenchendo-os com suas ideias até uma constatação que, de uma forma ou outra, já estava por lá. Mas queria dizer que essa forma de escrita me ata, e de mãos atadas é mais difícil escrever. Aliás, se esse é o seu caso, queria dizer que sobrevivemos, que é possível descobrir outras formas de produzir. Acredite: quando criança, um dos meus primeiros aprendizados foi reconhecer a posição da escrita, porque meus cadernos mortalmente confusos estavam repletos de "3"s onde seriam "E"s e de páginas escritas de baixo para cima, dessa vez literalmente.
Lembro que isso ficou muito mais transparente quando me encontrei com um artigo chamado O processo criativo e a tessitura de projetos acadêmicos de pesquisa . Título duro para um texto que ensina que um texto não é uma linha, mas uma tessitura, e que uma pesquisa não se desenrola em linha reta, mas como uma célula que se divide na formação de um ser vivo. É algo difícil de definir, e me parece muito próximo a uma sensação demasiado subjetiva. De todo modo, a constatação é comum entre aqueles que pesquisam: um conceito, uma ideia mencionada em uma ou duas linhas, pode ser posteriormente estendida e desdobrada até se tornar uma seção do texto ou mesmo um núcleo secundário de um projeto de pesquisa. Células formando tecidos, tecidos se diferenciando em órgãos... acho que você me entendeu.
Sendo sincero, diria que tenho aprendido aos poucos que não se escreve uma dissertação, ou uma tese. Escreve-se muito menos: produz-se uma seção, escreve-se sobre um tópico; no máximo, faz-se um capítulo. A dissertação é consequência de um processo minucioso, pequeno, celular. O corpo que é construído também não se faz somente de ideias, mas de uma série de condições de saúde mental, física, temporal e financeira que são fundantes do modo com o qual a pesquisa brasileira funciona. Nossas contradições e problemas estão postos, mas isso seria uma questão para outra conversa.
Ao escrever a minha dissertação, os passos na formação desse corpo é que me pareceram enroscados em uma trama complicada demais para que eu pudesse seguir. A pandemia de Covid-19, somada a uma escrita sobre as big techs que era feita de uma periferia quase completa do mundo globalizado, em uma cidade do interior e na ausência de contato quase completa com o externo, faziam meu tema se hipertrofiar e dominar a vida privada. Com as aulas, os filmes, os encontros com amigos, os textos para serem lidos e os textos para serem escritos, a minha vida acabou resumida a uma tela de 14 polegadas de um notebook, seu LCD já quase sem luz e suas teclas já quase sem funcionar. As dores de cabeça e de coluna frequentes anunciavam a debilidade de um corpo já tempo demais imóvel. Adoecer foi inevitável.
Há um bom alerta a ser feito para aqueles estudantes que, depois de mim, se aventurarão por esse mesmo caminho: o corpo existe e tem suas demandas inegociáveis. Na época, eu havia optado por um experimento metodológico que envolvia precisamente uma imersão corporal em campo. Nesse caso, isso envolvia passar horas a fio interagindo e registrando a interação com plataformas como TikTok e Instagram. Hoje, percebo que a captura era um tanto quanto óbvia, já que meu corpo não estava isento de seus efeitos devastadores sobre o sono, a autoestima e a atenção. A cada passo adiante para a obtenção de dados, o registro era subvertido pela interação com a plataforma, que convertia aquele tema em distração. Incapaz de manter a escrita em paralelo, passei a fazer registros mais longos após a interação, descrevendo o que retia do conteúdo visto e como me sentia após os contatos. Aos poucos, esses registros diminuíram, comprometendo a qualidade do que antes comportaria, inclusive, uma pesquisa de cunho quantitativo - o que nunca foi, de fato, a minha intenção.
De lá para cá, saímos da pandemia atolados até o pescoço de redes sociais e tecnologias da informação que violentam nossa cognição brutalmente. Não estou certo que a imersão em campo seria tão nociva para a saúde mental se o tema escolhido fosse outro, mas o que me ocorreu foi uma fragmentação completa da atenção e uma sobrecarga sensorial intensa da qual ainda tenho sequelas dois anos depois. O TikTok passava a me mostrar conteúdos realmente interessantes, e a arrastar consigo 4, 5, 6 horas do meu dia. Eu não parava para assisti-lo, não poderia. Ele que se misturava em minhas atividades como uma taxa: "Menos 50% de sua atenção ao tentar ler, senhor!"; "Menos 50% de sua atenção ao conversar!"; "Menos 96% de sua atenção ao lavar os pratos!". Logo, é claro, fazer as atividades sem aquela companhia se tornava insuportável.
Escrever, por sua vez, é coisa que não se faz sem atenção plena. Quando tentava ler ou escrever, o fundo branco das letras crescia como uma parede que eu jamais tinha visto. Não era mais possível ler sem um sono que surgia de imediato, e nem dormir sem a companhia de vídeos que distraíssem o momento chato quando nos deitamos na cama e aguardamos até adormecer. Algo sinistro havia crescido e devorado o meu íntimo naqueles anos em que respirar era um ato de coragem e de medo. Minha produção cairia brutalmente, bem como minha capacidade de leitura e de escrita. Por sua vez, a ausência de registros se tornava mais e mais desafiadora, me fazendo recorrer às redes para tentar produzir, e fracassar novamente porque a atenção já não funcionava mais, havia sido mastigada e cuspida pela big tech.
O medo da pandemia e o estresse do confinamento me tornavam insone, e a preocupação com a saúde dos meus familiares só poderia ser abafada pelos vídeos que davam notícias de novas formas de se distrair. Não entreter, não informar: distrair. A vida passava por sob meus pés, mas o trato difícil me levava a alguns vídeos curtos como quem busca "só mais um" trago de cigarro. E não me leve a mal, não sou, nem nunca fui, uma pessoa afeita às redes sociais. Fui pego por uma via bastante diferente daquela pela qual a maioria das pessoas entram nesse jogo doentio: deglutido pelo meu tema. Existem motivos pelos quais é preciso puxar o freio no andamento de um projeto de pesquisa, esse foi o meu.
Substituí a parte final da minha dissertação por um trato rápido com o meu problema com a escrita e decidi por matar o texto ainda incompleto, tamponando-o com o pouco que tinha e dando fim a um processo que já se tornava, mesmo, torturante. Não é pouca a frustração desse momento, mas quando fui à banca de defesa, já tinha a clareza de que um trabalho médio era o melhor que poderia ser feito. As críticas, que foram poucas, admito, passavam por mim como pássaros que anunciavam as últimas horas daquele processo de pesquisa que, felizmente, se encerrava.
Suspeito que alguns colegas possam escorregar para situações como essa pelos mais diversos motivos: a pressão pelo trabalho genial sem tempo hábil; a insensatez da academia em ignorar os problemas pessoais de seus alunos pesquisadores; ou simplesmente algumas das dezenas de abusos morais e sexuais que são bastante conhecidos, e que seguem sendo reproduzidos como o estado de natureza desse homo academicus. Meu alerta aqui não é só sobre as redes e a big tech, é sobre um aparato capitalístico de responsabilização individual que se abate massivamente sobre os nossos corpos. Alguém precisa gritar quando é hora de parar as máquinas e ceder o que resta de energia para mudar a direção, antes de seguir a viagem.
Escolho este texto para abrir esse blog pessoal porque sinto que isso nunca foi dito em definitivo no texto da dissertação (que não foi, e nem será, devidamente acabado). Seu defeito é prova viva das consequências do que pretendia abordar. Mas também escrevo esse texto com alguma celebração, como um primeiro movimento na reconstrução de uma atenção plena que outrora consegui ter. Se o ponto final da dissertação era, assim, um pedido velado de socorro de uma mente confusa, solitária e superestimulada, o início desse blog é um primeiro refugo de uma atenção e de um corpo que, agora sei mais claramente, precisa ser cuidado e cultivado mesmo no mais intenso processo de pesquisa ou de revolução tecnológica.
Não digo, porém, que não escrevi o texto dos meus sonhos porque fui impedido pelo Sars-Cov-2 ou pelo Vale do Silício. Isso seria bobagem. Digo que os limites para a produção de uma dissertação, os motivos para iniciá-la e as razões para terminá-la nem sempre são resultado de uma forma que se fecha sobre si mesma, anunciando que está pronta. Às vezes, seu fechamento é um corpo exaurido, uma academia precária ou uma vida cafetinada. É preciso, nesses momentos, o aceite de que às vezes um texto, como um corpo, antes carrega em sua estrutura as cicatrizes de sua história, e só depois de tê-las expostas e realmente vistas, as formula em novas palavras, mais resistentes aos dentes que outrora as devoraram. É preciso gentileza com este tipo de limitação.
28/06/2024